Para assinalar os 150 anos da figura do Zé Povinho, figura criada por Rafael Bordalo Pinheiro, a equipa técnico-pedagógica do Centro Qualifica do AGML, realizou no dia 5 de setembro uma viagem cultural às Caldas da Rainha.
Partindo de Meleças de comboio pela Linha do Oeste, o trajeto, marcado por estações e apeadeiros históricos, deu aos viajantes a oportunidade de apreciarem os tradicionais painéis de azulejos que continuam a ser uma marca da identidade ferroviária portuguesa.
À chegada às Caldas da Rainha, o programa centrou-se na Rota Bordaliana, um percurso urbano que homenageia o artista Rafael Bordalo Pinheiro através de esculturas e intervenções artísticas espalhadas pela cidade, de que se destaca o Zé Povinho, o Padre Cura e algumas das mais emblemáticas criações cerâmicas do autor.
A visita incluiu ainda uma passagem pela antiga Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro, hoje loja onde é possível adquirir as faianças Bordalo Pinheiro e, em edifício contíguo, com percurso guiado, explorou-se o espaço museológico que reúne trabalhos de Rafael e do seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro. A coleção exposta apresenta caricaturas, esculturas e peças de cerâmica que espelham a crítica social e política do século XIX, ao mesmo tempo que revelam a força criativa de um nome maior da cultura nacional.
O itinerário terminou no Museu José Malhoa, espaço rodeado pela tranquilidade do Parque D. Carlos I e dedicado a um dos grandes nomes do naturalismo português. A visita a este museu é uma viagem ao final do século XIX e início do século XX, um período em que a pintura em Portugal se abria às novas sensibilidades da cor, da luz e da representação da vida quotidiana. Logo nas primeiras salas, destacam-se algumas das obras mais icónicas de José Malhoa, como Os Bêbados (ou Festejando o São Martinho) ou ainda As Promessas, e vários retratos e cenas do quotidiano rural, onde a mestria do desenho se une à sensibilidade cromática.
Mas o museu não se esgota na obra de Malhoa. A exposição “Maria de Lourdes de Mello e Castro: uma esplêndida lição” reúne mais de 70 obras — entre pinturas, desenhos, documentos pessoais e publicações — provenientes do acervo do museu, da família da artista e de outras instituições, oferecendo uma visão aprofundada da sua produção artística. Maria de Lourdes (1903–1996), natural de Tomar, foi uma das últimas discípulas de José Malhoa, com quem estudou de 1921 até à morte do mestre.
O espaço museológico expõe ainda esculturas, peças de cerâmica e obras de outros artistas naturalistas e modernistas, criando um panorama mais vasto do contexto artístico da época. Assim, o Museu José Malhoa não é apenas um tributo ao pintor que lhe dá nome, mas um lugar onde se preserva e valoriza o diálogo artístico de um período fundamental da pintura portuguesa.
A viagem terminou como começou: no comboio, agora de regresso a Sintra, com a sensação de que Bordalo ainda viaja connosco, no sorriso mordaz do Zé Povinho e na certeza de que a arte pode, de facto, transformar um lugar.

